terça-feira, 17 de março de 2009

Fatos mundanos que nos vitimizam.

Ela passeava pela casa. Sim, passeava. Era um ambiente desconhecido,
e daqui à um tempo, não existiria mais em sua vida.
Era mais ou menos dessa maneira que a garota vivia. De canto em canto, sem uma rotina, um ciclo.
Desde menina era imprevisível, e até gostava disso. Era adepta às mudanças, surpresas.
Até que entrou para a faculdade de química.
Achava que era uma profissão perfeita, já que buscava descobertas.
Conheceu novas pessoas, descobriu fórmulas, não as usava.
Namorou alunos, e até mesmo um professor.
Era inteiramente misteriosa. E avoada.
Deixou os elétrons e virou-se para os fios encontráveis na mecânica.
Decidiu contribuir para um mundo mais fácil de se controlar.
Mas parou pra pensar nos animais. Mudou-se para a biotecnologia. Perfeito! Ou não.
Direito, engenharia, história, administração, fisioterapia, jornalismo, engenharia de novo,
projetos inacabados.Sossego? Imagina! E é assim até hoje.
Mas agora ela não tem o mesmo gás dos outros tempos.
Não tem filhos. Não casou-se. Isso era muito comum.
Não tem carro, apenas uma charrete. Não tem cavalos para puxá-la.
Não tem casa, só uma barraca. Mora num pico de montanha. Numa barraca, pois é.
Não toma remédios. É doente do corpo. É doente da mente. É demente.
Isso tudo para não cair na rotina.
Ela renova sua alma. Mas ainda envelhece a sua pele.
Seu jeito criativo de reagir ao tempo é, digamos, interessante.
Facinante. Mas ela se foi. Não há parentes para velá-la.
Não há ninguém pra prosseguir com as novidades.
Não há.
Os jovens que ouviam essa história que saltava da boca da professora tomaram-na como exemplo.
Agradecem pelo cotidiano.
Os dias comuns não lhes fazem mal, nem os matam por viver de um cardápio limitado de sonhos.
Alegram-se de estarem respirando, e cuidando de seus corpos joviais.
Porém eles não sabem que sua mentalidade anda sofrendo com a ação do simples e do provável.
Mas os deixemos viver de um mundo previsível.
Eles ainda vão buscar uma charrete com cavalos imaginados que hão de guiá-los
para o cantinho da velhinha.
Aonde deixarão de ser robôs, e virarão gente.
Felizmente.

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