Era dia de gnochi. E como fiéis aos custumeiros atos da família,
todo dia 29, aparecia embaixo dos pratos de cada filho, cada neto,cada um, uma cédula.
Era costume. Era família. Era rotina.
Sempre as mesmas piadas, nada engraçadas, e as mesmas risadas. Falsidade.
Rotina.
O tic-tac do relógio tornava aquele momento cada vez mais angustiante, desprezível.
Não à um em específico, mas à todos que ao redor da mesa encontravam-se.
O homem da casa, com um aspecto arrogante mas de fala singela, apressava a mulher.
Até mesmo ele, que cuidava de chamar a todos para o encontro,
queria que este logo se desse por findado.
Era a rotina atingindo até mesmo àqueles que teimavam em seguí-la.
Os filhos, adolescentes, queriam sair com os amigos, divertir-se.
Mas não. Estavam presos ali, naquele momento bucólico. Repugnante.
Até que alguém permitiu-se falar.
Já era chato demais ter que aguentar as tias falando da vizinhança.
As sogras das noras, as mães dos sobrinhos.
Pior era quando o calado falava do silêncio.
Quem fora o combatente ?
Uma menininha que encontrava-se jogada na cadeira, ao fundo.
Cabelos caídos sobre os olhos, mas que permitiam observar-se a tristeza nos mesmos.
Estava apática. Uma expressão que transpassava a irritação, o tédio.
Ela levantou-se, e caminhando lentamente, ia calando os mudos.
Ninguém ali falava, pois não havia o que dizer.
E ela, de repente, respirou mais ar do que podia.
E o fez para nutrir-se de coragem.
Não sabia o que diriam.
Mas não mais aguentava.
O ar, seco, tornou-se um inimigo.
Era como se ele recusasse a adentrar no corpo da menina.
Tonteava.
"Vamos Beth, diz logo alguma coisa! Vamos!" aconselhava à si mesma.
E ela o fez.
- Sei que não estão mais acostumado com barulho. Só o que ouviram durante esses anos, longos anos, foram os ruídos da porta que abre-se sem cautela. O vinil de Elvis que acabou por tornar-se a trilha sonora dessa monotonia. E nada mais. Pois bem, queria eu quebrar o silêncio.
- Com que propósito ? - questionou o pai da menina.
- De quebrar esse jejum.
- Mas que jejum minha filha ?! - se irritou o homem - Não vê essa travessa em cima da mesa?
- Não meu pai, não falo de estômago. Falo de sonhos. Há tempos não os tenho, pois há tempos não vivo.
E a menina sentou-se. E o silêncio voltou a reinar.
Mas com a certeza de que, aquela noite, tudo iria mudar.
Ela voltara a respirar.
Cada decisão, é como uma chave. E pelo visto, ela encontrou a certa.
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